17% das empresas brasileiras usam IA. E 80% delas só compraram uma licença.
A pesquisa oficial do Cetic.br mostra a adoção de IA subindo no Brasil. O número que ninguém comenta é o de como essa adoção acontece — e ele explica por que tanta empresa não vê retorno.
O Cetic.br, braço de estatística do Comitê Gestor da Internet no Brasil, publicou a 16ª edição da pesquisa TIC Empresas. Ela ouviu 4.174 empresas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, e o titular foi o esperado: o uso de inteligência artificial por empresas brasileiras subiu de 13% para 17%.
A manchete circulou. O dado que importa, não.
Como essas empresas adotaram IA
Entre as que declararam usar IA:
- 80% compraram software ou sistema pronto
- 60% contrataram fornecedor externo para desenvolver ou adaptar
- 37% das grandes desenvolveram internamente — contra 24% no ano anterior
Ou seja: a esmagadora maioria da "adoção de IA" no Brasil é uma assinatura. Alguém aprovou uma licença, distribuiu logins e marcou a caixinha.
Isso não é crítica. Comprar pronto é a decisão certa numa porção enorme de casos — ninguém deveria construir o próprio editor de texto. O problema aparece quando a empresa confunde ter a ferramenta com ter mudado o processo.
A diferença entre ter e usar
A pesquisa também mostra para quê a IA está sendo usada. As duas aplicações que mais crescem são de linguagem:
- Mineração de texto e análise de linguagem escrita: 38%, contra 33%
- Geração de linguagem natural: 30%, contra 20%
São usos reais e úteis. Mas repare no que eles têm em comum: funcionam do lado de fora do sistema da empresa. Alguém copia um texto, cola na ferramenta, pega o resultado e cola de volta. O ganho é pessoal — aquela pessoa terminou mais rápido. Ele não é da operação.
O ganho vira da operação quando a IA passa a ler e escrever dentro do seu processo: no seu CRM, no seu ERP, na sua fila de atendimento, com as suas regras. E essa é exatamente a parte que licença nenhuma entrega pronta, porque ela depende de como a sua empresa trabalha.
O recorte por tamanho conta a mesma história
A adoção entre as grandes (250+ funcionários) foi de 38% para 50%. Entre as pequenas (10 a 49), de 10% para 15%.
A distância entre os dois grupos é de mais de três vezes — e cresceu. Mas a vantagem da empresa grande aqui não é orçamento de licença: licença de IA hoje custa dezenas de reais por usuário. A vantagem é ter quem faça a ligação entre a ferramenta e o processo.
É a única parte cara, e é a que decide o resultado.
O que fazer com isso
Se a sua empresa está nos 17%, vale responder três perguntas antes de renovar qualquer assinatura:
- Quantas horas por semana essa ferramenta economiza, medidas? Se ninguém cronometrou o "antes", não há como saber. E sem isso a renovação é fé.
- O resultado dela entra em algum sistema sozinho, ou alguém copia e cola? Copiar e colar é o sinal de que o ganho parou na pessoa.
- Se essa ferramenta sumisse amanhã, algum processo quebraria? Se não, ela é conveniência — o que é legítimo, mas não é transformação.
Se a sua empresa está nos 83% que ainda não usam, a boa notícia é que a etapa que todo mundo pulou é justamente a que você ainda pode fazer primeiro: olhar o processo antes de olhar a ferramenta.
Fonte: TIC Empresas 2025 — Cetic.br/NIC.br. Campo de fevereiro de 2025 a janeiro de 2026, com 4.174 empresas.